domingo, 21 de setembro de 2014

REFORMA AGRÁRIA E OUTRAS


O deputado Francisco Küster do PMDB denuncia o racionamento do óleo de soja em Florianópolis. O deputado Gentil Archer aparteia inocentando os mercados e culpando a indústria do setor que estaria retendo o produto para forçar a alta do preço... Isto bem na hora em que o produtor rural é obrigado a entregar sua soja com grande prejuízo e bem na hora da maior safra da sua história. E entregar para quem? Sempre a mesma história – o deputado denuncia – a imprensa noticia e fim. Será que isto tem alguma coisa a ver com reforma agrária? Enquanto isto uns vão implantando despreocupadamente a nova república, outros vão se preocupando com a constituinte e alianças partidárias, enquanto as donas de casa continuam fazendo a costumeira e imprevisível ginástica da aplicação do orçamento doméstico. Os deputados pelo menos denunciam. O que mais poderiam fazer? E o povão, o que faria com quinze milhões de ordenado mensal? “Será verdade ou será mentira?” Não importa, eu só queria saber! Com todas estas, botam uma metralhadora carregada nas mãos do Fidêncio e como este coitado nunca viu tão mortífero instrumento, sua imperícia e ignorância podem acarretar desfecho lamentável. É o mesmo que exigir do povão brasileiro que resolva os problemas que aí estão. Se com 8,5 milhões de km quadrados não conseguimos produzir alimento suficiente de subsistência, isto fala por si.

Mas nem todas as notícias são tristes, pois, “O Celeiro” está melhorando. Parabéns ao Darcy e equipe. Pronunciamento preocupante o do professor Sebastião Moreira Duarte. “Não devemos imitar os norte-americanos”. Devemos conhecer nossas origens, a formação étnica, histórica, cultural, etc do povo brasileiro. Se nós não nos conhecemos a nós mesmos, como queremos conhecer e interpretar nossos problemas, como vamos solucioná-los?

Seria muita veleidade do Tio Fidêncio querer ensinar a quem quer que seja, mas em termos de Brasil, nosso Gilberto Freyre é mais conhecido dos norte-americanos do que de nós. E porque eles conhecem melhor do que nós este ilustre brasileiro e sua obra também conhecem melhor o Brasil. E como sabem tirar proveito disto!

Peço licença ao professor para dar a minha opinião sobre a conclusão dada em seu pronunciamento. O que poderão fazer para “um futuro político mais promissor”, os jovens e as comunidades eclesiais de base, saídos que são do atual sistema de ensino? Em minha vida já vivi dois períodos de ditadura. Que personalidade se forma neste sistema? Nossos jovens de 25 anos de idade, criaram-se nele. Nem quero comentar. O professor sabe melhor do que eu como se reflete este estado de coisa na personalidade de um povo. Precisamos de muitas escolas e ensino sério.

Acredito piamente quando o professor Duarte diz que tudo vai dar noutro golpe. O povo brasileiro é inteligente e bem depressa vai dar com soluções para seus problemas e para isto é preciso pisar os calos de certa gente e daí... golpe. Quando será que vamos aprender a dar um nome certo a cada um de nossos problemas?

Não quero ser indiscreto mas perguntaria ao ilustre professor Duarte o que faria se pudesse implantar três leis básicas e reformistas em nosso país. Quais seriam elas? Pretendo fazer esta mesma pergunta a muita gente e personalidade de nossa região. E “O CELEIRO” ficará orgulhoso de registrar as respostas, que serão naturalmente do maior interesse de todos. Por fim, desejo que o professor consiga transmitir a seus alunos, e quem sabe a todos nós, o misterioso por que desta diferença, a qual eu não gosto de mencionar e admitir.

Romelândia, 12 de junho de 1985

Tio Fidêncio.

domingo, 7 de setembro de 2014

AINDA REFORMA AGRÁRIA ..


Como é Zé Pimenta, o que você está achando de nossa reforma agrária?
Estou entendendo nada!

Não admira, mas entre suas dúvidas, qual é a maior?
Ora Fidêncio, todos dizem que é preciso fazer reforma agrária e vem você dizer que o Brasil não precisa de nenhuma Lei neste sentido. Como explica isto?

Meu amigo Zé Pimenta, de tanto que já se ouviu falar sobre este assunto ainda não ouvi nenhuma definição de seu exato sentido. Esta é a verdade. Senão, dize lá tua opinião: “ O estivador de Salvador da Bahia, o favelado do Rio de Janeiro, o ferroviário ou minerador de Criciúma têm alguma coisa a ver com este assunto?

Fidêncio, eu sempre ouvi dizer que reforma agrária visa dar terra a quem não tem e quer trabalhar. Ora, o estivador, o ferroviário, etc. que você menciona, não precisam de terra...

Olha Zé Pimenta, conversa bonita nesta terra nunca faltou. Agora mesmo ouvi o sr. Wilmar Dallagnol dizer que “é preciso respeitar o direito de quem quer trabalhar”. Maravilhosa descoberta. E aqueles que estavam na terra, debandaram e foram passar miséria nas cidades; como vamos fazer respeitar o direito deles? O que os políticos ainda não descobriram é como tirar proveito de uma eventual “lei de reforma agrária”. Tão logo descubram, vai funcionar o eterno jeitinho brasileiro e teremos a dita cuja. Como se faltasse lei neste país! Ou eles entendem de uma vez por todas que a reforma agrária, em sua amplitude, abrangerá toda a sociedade brasileira, estivador, favelado, ferroviário, dona de casa, estudantes etc (principalmente este mundo infantil e juvenil das escolas, que será o Brasil de amanhã e do qual se faz tão pouco caso) ou a derrocada continua.

Então Zé Pimenta, você acredita que estes coitados que vão ganhar terra vão resolver o assunto?
Fidêncio, a verdade é que já não acho mais coisa nenhuma.

Aí está a grande verdade, meu amigo Zé Pimenta, e é justamente isto que muita gente boa e graúda quer. Este é o caminho da demagogia que qualquer hora deixará de funcionar. Para eles, não convém que o povão entenda. Mas tem uma coisa – todas as pessoas que eu referi precisam comer e para isto é preciso produção de alimentos. Alimentos que nosso país terá de produzir. De qualquer jeito. Ou vamos continuar importando feijão podre do México e repolho da Bolívia (vindos de avião)? A par de muita produção de alimentos, nós precisamos: - preço justo para o produto agrícola do produtor; preço justo deste alimento na mesa do estivador, do ferroviário, do favelado, etc..., pois eles, bem como todos os demais, são irmãos e co-interessados na produção agrícola; - por um freio na ganância do intermediário e implantar meios de transporte o quanto mais barato possível.... Por este caminho, a situação vai melhorar, um pouco a curto prazo e muito a longo prazo. 

Na mesma hora que o produtor de nossa região ganha CR$ 70.000 por saco de feijão, em Florianópolis um quilo custa CR$ 6.000. Pode?

Romelândia, 08 de junho de 1985.

Tio Fidêncio.