quarta-feira, 1 de outubro de 2014

ANTES DE COMEÇARMOS..


Os artigos que você lerá neste blog foram escritos, publicados nos jornais da região oeste de Santa Catarina (Brasil) e colecionados por ALOYSIO AGUINELO RODRIGUES DA FONSECA, nascido em Monte Negro-RS, aos 24 de outrubro de 1925, onde passou a infância. Ainda jovem, estudou e casou com Lucia Wergütz, constituindo família com a qual imigrou para Santa Catarina em meados de 1954, escolhendo ROMELÂNDIA para "PATRIA" de seus herdeiros. Fez, assim, parte das famílias pioneiras deste lugar, que na época pertencia ao município de São Miguel do Oeste. Desempenhou ali várias funções junto às pessoas que buscavam nele auxílio e orientações quando as dificuldades surgiam. Lutou muito pelo povo e pelo progresso daquela pacata cidade não obtendo para os mesmos a atenção que, como bom cidadão, achava merecida para aquele povo simples, humilde e acima de tudo trabalhador, pois isto dependia mais da vontade política daqueles que foram escolhidos por eles como seus representantes. Desempenhou a função de Escrivão de Paz na qual aposentou-se em agosto de 1989, época em que mudou sua residência para Chapecó. Deu a todos os filhos a oportunidade de estudar, pois considera a cultura uma herança que ninguém tira de ninguém e oportuniza a todos o sucesso e o bem estar familiar deixando assim uma parcela de contribuição para o progresso desta imensa Pátria da qual todos fazemos parte.

Ah, se todos os brasileiros, principalmente os representantes do povo, tivessem a visão e o conhecimento demonstrados em todos estes artigos! Com absoluta certeza, esta nossa gente não estaria passando por situações desumanas e por que não dizer, vergonhosas, para uma nação que teria todas as condições de ter uma posição mais digna para seu povo.

Com muito carinho e orgulho,

HELENA**

Chapecó, maio de 1998.

*Aguinelo faleceu em 12.02.2006, já de volta em Romelândia.

**Hoje, sua filha, HELENA RAMMÉ, organiza a publicação de um blog e de um livro com seus textos.


domingo, 21 de setembro de 2014

REFORMA AGRÁRIA E OUTRAS


O deputado Francisco Küster do PMDB denuncia o racionamento do óleo de soja em Florianópolis. O deputado Gentil Archer aparteia inocentando os mercados e culpando a indústria do setor que estaria retendo o produto para forçar a alta do preço... Isto bem na hora em que o produtor rural é obrigado a entregar sua soja com grande prejuízo e bem na hora da maior safra da sua história. E entregar para quem? Sempre a mesma história – o deputado denuncia – a imprensa noticia e fim. Será que isto tem alguma coisa a ver com reforma agrária? Enquanto isto uns vão implantando despreocupadamente a nova república, outros vão se preocupando com a constituinte e alianças partidárias, enquanto as donas de casa continuam fazendo a costumeira e imprevisível ginástica da aplicação do orçamento doméstico. Os deputados pelo menos denunciam. O que mais poderiam fazer? E o povão, o que faria com quinze milhões de ordenado mensal? “Será verdade ou será mentira?” Não importa, eu só queria saber! Com todas estas, botam uma metralhadora carregada nas mãos do Fidêncio e como este coitado nunca viu tão mortífero instrumento, sua imperícia e ignorância podem acarretar desfecho lamentável. É o mesmo que exigir do povão brasileiro que resolva os problemas que aí estão. Se com 8,5 milhões de km quadrados não conseguimos produzir alimento suficiente de subsistência, isto fala por si.

Mas nem todas as notícias são tristes, pois, “O Celeiro” está melhorando. Parabéns ao Darcy e equipe. Pronunciamento preocupante o do professor Sebastião Moreira Duarte. “Não devemos imitar os norte-americanos”. Devemos conhecer nossas origens, a formação étnica, histórica, cultural, etc do povo brasileiro. Se nós não nos conhecemos a nós mesmos, como queremos conhecer e interpretar nossos problemas, como vamos solucioná-los?

Seria muita veleidade do Tio Fidêncio querer ensinar a quem quer que seja, mas em termos de Brasil, nosso Gilberto Freyre é mais conhecido dos norte-americanos do que de nós. E porque eles conhecem melhor do que nós este ilustre brasileiro e sua obra também conhecem melhor o Brasil. E como sabem tirar proveito disto!

Peço licença ao professor para dar a minha opinião sobre a conclusão dada em seu pronunciamento. O que poderão fazer para “um futuro político mais promissor”, os jovens e as comunidades eclesiais de base, saídos que são do atual sistema de ensino? Em minha vida já vivi dois períodos de ditadura. Que personalidade se forma neste sistema? Nossos jovens de 25 anos de idade, criaram-se nele. Nem quero comentar. O professor sabe melhor do que eu como se reflete este estado de coisa na personalidade de um povo. Precisamos de muitas escolas e ensino sério.

Acredito piamente quando o professor Duarte diz que tudo vai dar noutro golpe. O povo brasileiro é inteligente e bem depressa vai dar com soluções para seus problemas e para isto é preciso pisar os calos de certa gente e daí... golpe. Quando será que vamos aprender a dar um nome certo a cada um de nossos problemas?

Não quero ser indiscreto mas perguntaria ao ilustre professor Duarte o que faria se pudesse implantar três leis básicas e reformistas em nosso país. Quais seriam elas? Pretendo fazer esta mesma pergunta a muita gente e personalidade de nossa região. E “O CELEIRO” ficará orgulhoso de registrar as respostas, que serão naturalmente do maior interesse de todos. Por fim, desejo que o professor consiga transmitir a seus alunos, e quem sabe a todos nós, o misterioso por que desta diferença, a qual eu não gosto de mencionar e admitir.

Romelândia, 12 de junho de 1985

Tio Fidêncio.

domingo, 7 de setembro de 2014

AINDA REFORMA AGRÁRIA ..


Como é Zé Pimenta, o que você está achando de nossa reforma agrária?
Estou entendendo nada!

Não admira, mas entre suas dúvidas, qual é a maior?
Ora Fidêncio, todos dizem que é preciso fazer reforma agrária e vem você dizer que o Brasil não precisa de nenhuma Lei neste sentido. Como explica isto?

Meu amigo Zé Pimenta, de tanto que já se ouviu falar sobre este assunto ainda não ouvi nenhuma definição de seu exato sentido. Esta é a verdade. Senão, dize lá tua opinião: “ O estivador de Salvador da Bahia, o favelado do Rio de Janeiro, o ferroviário ou minerador de Criciúma têm alguma coisa a ver com este assunto?

Fidêncio, eu sempre ouvi dizer que reforma agrária visa dar terra a quem não tem e quer trabalhar. Ora, o estivador, o ferroviário, etc. que você menciona, não precisam de terra...

Olha Zé Pimenta, conversa bonita nesta terra nunca faltou. Agora mesmo ouvi o sr. Wilmar Dallagnol dizer que “é preciso respeitar o direito de quem quer trabalhar”. Maravilhosa descoberta. E aqueles que estavam na terra, debandaram e foram passar miséria nas cidades; como vamos fazer respeitar o direito deles? O que os políticos ainda não descobriram é como tirar proveito de uma eventual “lei de reforma agrária”. Tão logo descubram, vai funcionar o eterno jeitinho brasileiro e teremos a dita cuja. Como se faltasse lei neste país! Ou eles entendem de uma vez por todas que a reforma agrária, em sua amplitude, abrangerá toda a sociedade brasileira, estivador, favelado, ferroviário, dona de casa, estudantes etc (principalmente este mundo infantil e juvenil das escolas, que será o Brasil de amanhã e do qual se faz tão pouco caso) ou a derrocada continua.

Então Zé Pimenta, você acredita que estes coitados que vão ganhar terra vão resolver o assunto?
Fidêncio, a verdade é que já não acho mais coisa nenhuma.

Aí está a grande verdade, meu amigo Zé Pimenta, e é justamente isto que muita gente boa e graúda quer. Este é o caminho da demagogia que qualquer hora deixará de funcionar. Para eles, não convém que o povão entenda. Mas tem uma coisa – todas as pessoas que eu referi precisam comer e para isto é preciso produção de alimentos. Alimentos que nosso país terá de produzir. De qualquer jeito. Ou vamos continuar importando feijão podre do México e repolho da Bolívia (vindos de avião)? A par de muita produção de alimentos, nós precisamos: - preço justo para o produto agrícola do produtor; preço justo deste alimento na mesa do estivador, do ferroviário, do favelado, etc..., pois eles, bem como todos os demais, são irmãos e co-interessados na produção agrícola; - por um freio na ganância do intermediário e implantar meios de transporte o quanto mais barato possível.... Por este caminho, a situação vai melhorar, um pouco a curto prazo e muito a longo prazo. 

Na mesma hora que o produtor de nossa região ganha CR$ 70.000 por saco de feijão, em Florianópolis um quilo custa CR$ 6.000. Pode?

Romelândia, 08 de junho de 1985.

Tio Fidêncio.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

PAUSA NA REFORMA AGRÁRIA.


Tio Fidêncio matutando com seus botões: - Como a minha reforma agrária foi por águas abaixo, vamos fazer uma pequena pausa, brincar um pouco e voltar outro dia. Deus também não fez o mundo num dia e afinal, pra que tanta afobação! Enquanto isso o minuano há de varrer as nuvens acumuladas no espaço. Pra onde? Não sei! Você sabe?... 

É, Zé Pimenta, a palavra é de prata mas o silêncio é de ouro diz lá o chinês. Portanto, “mesmo tendo um milhão de coisas a dizer”, o melhor é calar o bico. E já estou reconhecendo que quem está certo é você. Sábia natureza – ainda o chinês, que nos deu duas e uma só boca para escutar bastante e muito e falar pouco ou menos. Já viu se este negócio fosse invertido? Quantas páginas precisaria ter “O CELEIRO”? Para a gente descarregar suas mágoas; dizer coisas e perguntar outras tantas; fazer conchavos, coligações e alianças; xingatórios e mentiras; falar muito sem dizer nada e naturalmente para nos convencermos a nós próprios, eleitores manipulados, que os burros somos nós mesmos?


Mas a mãe natureza é sábia e recomenda moderação. Por isso vamos calar e escutar: Roma falou... assunto resolvido. Tudo tem sua hora. Mas falando em “hora”, professora Filomena, Diretora do Colégio, é com h ou sem h? Porque você deu um puxão de orelha no Tio Fidêncio, só porque no dia das mães de 1985 escreveu ombro com h. Você fez como a professora Dona Eufrásia: “Vocês não tem mesmo nenhum respeito pela gramática”? Também pudera, pro lado de cá o coitado do Fidêncio, pro lado de lá, a diretora do colégio! Único jeito é perdoar.

Mesmo assim, sem conhecer línguas, proclamo nosso idioma o mais belo, sonoro, melodioso, lógico e ... imprevisível do planeta. Senão vejamos:

- Donde vem cumpade?
- Do cimentéro.
- Onde é isto?
- Ora, onde nóis enterra os falecido.
- E porque cimentéro?
- Os tumbo não é de cimento? É né? Pois então é cimentéro memo!

- Nunca pensei que o cumpade fosse tão atrasado.
- Mas também não precisa debochá. Como é então?
- É sumintéro.
- E porque sumintéro?
- Quem foi pra lá sumiu! Pois taí – É sumintéro...

Romelândia, 02 de junho de 1985.
Tio Fidêncio.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

ÊXODO RURAL E REFORMA


A pessoa que acompanha nosso pensamento sobre êxodo rural, neste Cantinho de Romelândia, já deve ter compreendido que nosso cuidado nasce do tão badalado assunto da Reforma Agrária, que agora chega a uma fase decisiva – embora seja só o começo – e do modo mais triste e lamentável. Já deixei claro que minha grande preocupação provém do enorme desconhecimento, em nosso país, da realidade agrária. Sei que há cidadãos, e muitos felizmente, que são estudiosos e se preocupam seriamente com o problema. Pessoas que têm os pés no chão. Mas o que estamos assistindo por parte de nossos governantes é desconhecimento de causa e despreparo. Quando eu falo de governo eu não me refiro ao Presidente da República , nem aos governadores, nem legisladores atuais. Refiro-me sim à classe dominante em nosso país – incluídos os governantes -, desde o tempo da independência. Durante este século e meio nós só tratamos de destruir a natureza – a terra e o rurícola. A realidade está aí para ser vista por quem tiver boa vontade.

O grande e mais grave problema é o despreparo, continuo afirmando. Vejamos a notícia que nos traz o rádio: - O ministro dos assuntos fundiários (portanto da reforma agrária) declarou em entrevista que a reforma agrária será implantada prioritariamente nas áreas de conflitos. Portanto, vai haver reforma na opinião do ministro em Romelândia, São Miguel do Oeste, Cunha Porã e Abelardo Luz, em nossa região, onde houve invasão de propriedades particulares. Configurou-se o estado de conflitos – portanto, agir. Em Anchieta, Descanso, Itapiranga está tudo em paz, não houve área de conflito, portanto não precisam, por enquanto de reforma agrária. Maior ignorância da gravidade do assunto não pode haver. Medida paliativa que só fará agravar a situação no país inteiro. Diante da indecisão do ministério, outros focos criarão coragem e as invasões vão continuar.

Nós não precisamos de nenhuma Lei de reforma agrária. O que nós precisamos é de reforma de consciência. Consciência Nacional. O Ministério não fará reforma agrária. O Presidente não fará. Quem vai fazer reforma neste país é somente uma consciência nacional que reunirá todos os brasileiros debaixo da bandeira e em torno da constituição, mostrando que quem tem direitos também tem deveres. Nada mais e a reforma agrária se fará pacificamente pelo próprio povo brasileiro. Cada qual no seu posto e cada qual com seus direitos e cada qual com seus deveres. O resto é conversa.

Romelândia, 30 de maio de 1985.


Tio Fidêncio.

domingo, 20 de julho de 2014

AINDA A REFORMA AGRÁRIA..


Continuamos o pensamento do último “Cantinho de Romelândia”. Se todos os minifundiários do sul do nosso país, de 1945 pra cá, tivessem ficado aí, produzindo tudo o que precisassem para seu sustento e vendendo o excedente, hoje ninguém falaria em falta de alimentos neste país e nas cidades não existiria tão cruciante, o problema do desemprego e do subemprego. (Porque tantas mazelas para cima de nós brasileiros: fome, falta de emprego, analfabetismo crônico, milhões de crianças abandonadas, velhice ao desamparo, prisões superlotadas, etc) Eu já fico até com vergonha diante de nossa bandeira. Será que ela não merece mais respeito?

Todos nós estamos convocados para esta grande empreitada, manifestando por todos os meios, nossa inconformidade diante deste quadro. Não sei com que cara, Delfim e sucessores aparecem nas reuniões do FMI e imprensa diante disso tudo. E ainda aparecem por lá com manias de grandeza e mordomias.

Está também na hora de aprendermos fazer menos patriotadas e trabalhar e produzir mais.

Existem diversas razões para o êxodo rural dos últimos 40 anos. Mas hoje vamos falar num quadro atual, que já elucida um pouco. Levantamento feito no Rio Grande do Sul mostra que a soja custa ao produtor CR$ 62,00 e ele está recebendo somente CR$ 44,00. Ano passado a soja custava CR$ 20,00 e o saco da farinha de trigo de 50 quilos custava CR$ 15,00 e hoje custa CR$ 80,00. Será que o agricultor já tem novamente licença para plantar o trigo? (Esta é outra história triste que será abordada). Trigo para fazer seu pão, para não ir comprar no mercado. Nosso colono recebia pelo quilo de porco em dezembro de 1984 CR$ 3.120,00 e hoje recebe CR$ 3.050,00. O concentrado neste meio tempo subiu de CR$ 11,00 para CR$ 35,00. Afinal, quem governa este país? E nosso agricultor está sendo convidado para, em praça pública, brevemente, bater palmas nos comícios de nossos representantes políticos.

E esta história repete-se desde que me conheço (será que me conheço?) por gente.

Ainda existem muitas outras razões do êxodo, as quais veremos, e que, de um modo geral, não merecem atenção – o que caracteriza mais uma vez quem e o que governa este país.

Romelândia, 29 de maio de 1985.


Tio Fidêncio

quarta-feira, 16 de julho de 2014

AINDA A REFORMA AGRÁRIA.


Nós estudamos. Procuramos aprender com os outros... Os outros devem aprender conosco. E disto tudo pode nascer alguma coisa positiva. Não desesperemos!

Estamos tratando (tentando tratar) do magno assunto “reforma agrária”. Já deixamos claro nosso pensamento de que este problema não pode ser solucionado sem darmos a devida atenção ao fenômeno êxodo rural e tentar elucidar as causas do mesmo. Um povo que tinha a sua terra e debandou! O termo êxodo é este mesmo, porque foram enfrentar uma vida nova num ambiente desconhecido.

Vamos partir da pressuposição de que este grande problema vai ser em última instância, resolvido nos gabinetes governamentais, na capital federal. Lá estão assessores altamente capacitados e que saíram naturalmente de nossas faculdades. Estudaram pra que afinal?

Mas, mesmo partindo desta premissa não deixamos de preocupar-nos com os possíveis resultados. Senão vejamos a opinião de um vestibulando da Faculdade de Ciências Agrárias de Belém do Pará, num quesito sobre o significado do termo “êxodo rural”. É do Correio do Povo ( uma das coisas boas da vida que perdemos).

VESTIBULANDO REDEFINE O ÊXODO RURAL – Belém, 14 (CP) – O êxodo rural tanto pode ser “uma ferramenta que serve para executar algumas tarefas na área da agricultura”, como, segundo algumas redações feitas por vestibulandos da Faculdade de Ciências Agrárias do Pará. A prova da redação manteve, assim, a tradição de verdadeira batalha para os candidatos no último dia do teste a que 25 mil deles se submeteram, domingo, na capital, em meio a intensa chuva, que durou desde a manhã, e que provocou pequeno atraso no início da prova de redação e expressão.

De acordo com a redação do vestibulando que definiu o êxodo rural como uma ferramenta agrícola, “ela é constituída por uma peça de metal em forma de chapa, com um cabo de madeira de aproximadamente um metro de comprimento, com o diâmetro quantas vezes for o diâmetro do furo onde fica encaixado o mesmo (cabo)” E diz mais: “ O funcionamento desta ferramenta é bem simples. Sempre funciona em frente do operador, em uma posição inclinada para facilitar o serviço. Algumas das suas utilidades são: a capina, abrir covas, valas, etc.”

Ó meu amigo Zé Pimenta! Compreendeu agora o que é êxodo rural? Não é tão complicado como parecia. Né?

Não sei se me preocupo sem razão, mas já vai para alguns anos que guardo este recorte do Correio do Povo e fico me perguntando nas horas de sililóquio se este ilustre cidadão – hoje formado agrônomo – não está em algum gabinete em Brasília, preparando algum ante-projeto de reforma agrária. Porque até hoje nós andamos brincando demais com este assunto que é muito sério e põe em risco nossa própria sobrevivência como Nação.

Romelândia, 28 de maio de 1985.

Tio Fidêncio.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

AINDA A REFORMA AGRÁRIA


Um dos pontos chaves da Reforma Agrária será colocar a terra ao alcance de quem nela quer trabalhar. É... ”terra pra quem quer trabalhar”! É bonito, principalmente no papel, e esta euforia nos deixa preocupados, porque a posse da terra é apresentada como a solução maior e única. Mas eu sempre pergunto porque tanta gente que tinha terra, abandonou, deu mais ou menos de presente e foi embora? Por quê? Já se vê que a posse da terra só por si “não resolve o problema”. Quais são as causas do êxodo rural então? Em nossa região sul, é claro, porque lá do norte e nordeste não as conhecemos e serão naturalmente outras – Lá é outra terra, da qual só temos vagas informações ou desinformações amplas.

Ainda que a terra seja doada para quem quer trabalhar, - o que seria justo – ainda falta o mais importante e o mais difícil: O amor à propriedade e o orgulho pela profissão, e sentir-se valorizado como parte indispensável no contexto da sociedade. Este amor e este orgulho não podem ser insuflados por leis e decretos mas devem emanar de um sentimento de ampla segurança. É como o caso de o governo preocupar-se com o controle da natalidade porque a fome impera no país mais rico do mundo.

Quando Baltazar do Bem e Canto assumiu a Secretaria da Agricultura no governo Amaral Souza, disse uma coisa importante: "Precisamos fazer com que nosso agricultor volte à agricultura de subsistência, que não sei por que foi abandonada". O que, é claro, não conseguiu, mas na hora da posse, se não matou, tirou pena. Ele não queria dizer que o agricultor só deve produzir o que consome. Queria sim dizer que o agricultor não deve comprar no mercado aquilo que ele mesmo pode produzir.

Romelândia, 15 de maio de 1985.

Tio Fidêncio.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

REFORMA AGRÁRIA


Um dos grandes assuntos do momento. E dos tantos grandes problemas a resolver. Em verdade o maior, porque dele depende a solução dos outros, principalmente o social. Isto porque não podemos esquecer as leis da vida e uma delas ensina que saco vazio não para em pé. E todos precisam comer. O doutor precisa e o Jeca Tatu, depois de tanta tristeza, aprendeu que também precisa. E além de providenciar o que comer, ele teve de aprender mais algumas coisas elementares e muito necessárias.

O assunto é sério e o grande problema é: - quem vai fazer esta reforma? Serão os políticos que nada entendem do assunto - ou não querem entender - ou serão os tecnocratas de gabinete que tudo complicam? Os latifundiários, que pesam na balança das decisões ou os minifundiários, que constituem grande maioria - mas que nada pesam? Começar por onde? No México onde o extinto INDA foi buscar o Modelo da Reforma de 1965? Ou nos Estados Unidos da América do Norte, donde os técnicos já trouxeram tanta coisa boa? Ou vamos de uma vez por todas aprender que nosso clima é nosso; a composição do nosso solo é característica “nossa”. A distância dos centros da produção de alimentos e dos centros consumidores é astronômica e muito nossa, dentro dos meios de transporte – os mais caros do mundo - por também serem nossos, e tantas outras particularidades mais.

A triste realidade é que nós nem conhecemos nosso país. O Zé povinho (eu) por absoluta falta de condições e a classe dominante por absoluta falta de interesse.

Eu li algures ou será que ouvi dizer, será verdade ou será mentira que nós temos em nosso país fazendas que abrangem um município inteiro ou mais, de um dono só e tudo o que está lá dentro pertence a este cidadão, incluídos os trabalhadores ou seja, os habitantes. E nós aqui, minifundiários, somos donos do produto de nosso trabalho até onde?

Romelândia, 08 de maio de 1985.

Tio Fidêncio.

terça-feira, 8 de julho de 2014

NOTÍCIA ALVISSAREIRA E CONFUSA


Dia 1º de maio de 1985, todos nós ouvimos a alvissareira notícia: No mês de abril baixou o índice da inflação. A novidade surpreendeu a todos, porque o brasileiro está completamente desacostumado de notícias boas, neste terreno. De saída, pela surpresa, todos ficaram em silêncio, até que alguém começou a estabelecer comparações e daí... todos sabem tudo sobre tudo e ninguém sabe nada sobre nada e quando em meu raciocínio próprio concluí que todos sabem tudo a respeito dos outros e nada sobre si mesmos, tudo isto virou numa coisa bem engraçada.

Eu estava naquele dia em Chapecó e ouvi os comentários de algumas donas de casa: o feijão subiu no mês de abril de CR$ 1.500,00 para CR$ 2.620,00, a banha subiu de cinco mil para sete mil e por aí afora. E falando em banha, para variar um pouco, aquilo que vem empacotado será banha? Qualquer hora vou empacotar um quilo de banha do porquinho que de vez em quando carneio, para ver se dá. Não custa aprender.

Quem afinal está com os pés no chão e a cuca no lugar? É o economista com suas teorias, ou a dona de casa com os milagres e acrobacias que precisa fazer para controlar a tal da inflação? Ou foi o Ministro Delfim Neto que com sua política da panela cheia deixou muito caboclo bom até sem panela. Até quando, Catilina?

Romelândia, 02 de maio de 1985.

Tio Fidêncio.

domingo, 29 de junho de 2014

QUAL A MAIOR PREOCUPAÇÃO?


Vamos fazer uma pequena pausa para pensar no assunto do momento: A morte do nosso Presidente Tancredo. Que Deus o tenha em sua santa paz, é nosso desejo. E nós... vamos deixa-lo em paz também? Se os grandes de nossa terra querem de fato homenageá-lo, devem executar o programa de governo dele, que tantas esperanças suscitou na mente de nosso povo.

Como a vida precisa continuar, volta a nossa maior preocupação a ser justamente o povo brasileiro. Povo que se satisfaz com tão pouco. Procedendo sempre como se tudo fosse destino...trazido pela vontade de Deus. Assim o que me chamou a atenção foi uma pergunta que um repórter fez em praça pública, no dia 21 deste. Perguntava a cada um que encontrava: - Você acha que o Presidente Sarney vai conseguir cumprir o programa traçado pelo Presidente Tancredo, fazendo pelo povo aquilo que este se propunha a fazer? Cada qual respondia a seu modo mas todos procuravam afirmar que a esperança ainda não morreu.

Eu perguntaria ao repórter com outra pergunta: - O Presidente Tancredo teria conseguido? Figueiredo conseguiu? Geisel que depois de empossado mudou substancialmente seu programa de governo, conseguiu? Médice, Costa e Silva conseguiram? Jango e Jânio conseguiram? Principalmente aqueles, pois tinham e detinham em suas mãos – aparentemente- todo o poder para governar.

Todo presidente em nosso país está imbuído da melhor boa vontade. São verdadeiros patriotas que gostariam imensamente dar ao povo o que este merece. Mas porque o negócio não vai?...Este assunto dá pano pra muita manga.

Romelândia, 24 de abril de 1985.

Tio Fidêncio.

sábado, 28 de junho de 2014

MEDITAÇÃO

Todos nós temos o costume de pedir a Deus as coisas que desejamos e que esperamos alcançar. Pedimos paz, saúde, felicidade e pão. Não é isto que pedimos cada dia? O pão nosso de cada dia nos dai hoje?

Bonito, não é Zé Pimenta? Mas será que esta nossa conduta está certa? Nós pedimos como se nós tivéssemos o direito de ser atendidos. Ou melhor, que ELE tivesse obrigação de nos atender. Escutar e dar tudo o que pedimos.

Entende o Tio Fidêncio que muito melhor do que isto seria agradecer a Deus cada dia aquilo que de bom nós temos em nossa vida. Sempre tivemos e hoje ainda temos. Saúde, paz, alimentos, casa para morar, uma cama para descansar das canseiras da vida. Crianças ao nosso redor. Muitas crianças, com seus olhos azuis, verdes, castanhos, límpidos e cristalinos, irradiando uma profunda e incompreensível paz. Flores de todos os matizes e aromas – o céu azul – o cosmos com suas miríades de astros, o sol, o dia, a noite. As lavouras pejadas de frutos. E quanta coisa mais. Cada um de nós.

E nós continuamos pedindo. Não seria melhor, torno a perguntar, agradecer sinceramente e com humildade aquilo que temos e já recebemos? Esta história sempre me faz lembrar o freguês que vai comprar fiado. E compra. E leva. E leva e nunca se lembra de pagar. De repente o bodegueiro perde a calma, dizendo: Agora você paga o que já recebeu...senão... nada mais.

O que estamos nós fazendo para pagar todo o bem que já recebemos da divina providência? O assunto seguirá noutra oportunidade. E você, meu amigo Zé Pimenta, dê algum palpite também. 

Romelândia, 11 de abril de 1985.

Tio Fidêncio.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

NOSSA LÍNGUA 


Na última edição saiu uma palavra nova. Para tio Fidêncio pelo menos. 

É sociólogo. Pelo menos no meu dicionário não existe. Mas como a língua de um povo está em constante modificação e aperfeiçoamento, admite-se que tal ou qual palavra ou expressão venha um dia existir. Será um erro gráfico, está desde já perdoado. Mas continuo insistindo que o possível acontece. 

Senão vejamos a novidade recente que se chama “um barato”. Donde veio esta expressão? Originou-se de que país? Pelo que pude entender deve ser uma palavra neutra. É pelo menos o que fiquei imaginando outro dia ao assistir um programa de televisão onde ele disse à colega sei lá se de lazer ou de trabalho: Você é um barato! Não consegui entender. Mas procurando lá com meus botões criei uma situação que pudesse me ajudar e pensei: Que tal se ele dissesse : Você é uma barata! Não é possível, não é Zé Pimenta! Assim não dá. A continuar assim, que será da última flor do Lácio? Inculta e bela – vá lá! Com coisas assim até nosso Machado de Assis leva um susto de vez em quando. Outra que ouvi de um narrador gaúcho: Adão foi um índio abarbarado por falta de erudição. Esta gostei – falta de erudição. 

Pelo menos este não podia dar a culpa ao professor. Outro procurou um dia destes o Tio Fidêncio e disse assim: Vim pedi um conseio ao sinhô porque sou meio burrão bastante pra mais de metro e não entendo as coisa. Por favor Zé Pimenta não deboche. 

Romelândia, 26 de março de 1985. 

Tio Fidêncio.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

ABERTURA POLÍTICA

De tanto ver todo mundo alegre, faceiro, até o Tio Fidêncio anda bastante animado. E meu amigo Zé Pimenta, como anda? Eufórico também? Que bom. Não sei que coisa maravilhosa é o povo brasileiro. Já disse um sociólogo, há tempos, que o brasileiro é o povo do jeitinho. Mas, tudo o que é demais não presta. Por isso a gente fica meio desconfiado também. Confia desconfiando. Nossos representantes lá nas altas esferas deram a impressão ao povo que somente a tal de abertura democrática vai resolver os problemas do Brasil. Mas o Tio Fidêncio, como tanta gente mais, tem viva lembrança de 1960, quando todos os brasileiros votaram ou no sr. Jânio Quadros ou no sr. Jango. Eleitos com entusiasmo nunca visto nesta terra. Um presidente da República e outro Vice-Presidente. Numa vasta e ilimitada liberdade democrática. Ainda me lembro perfeitamente do som característico da vassoura do Jânio, inclusive nos programas da Rádio Aparecida. Que fim levou a tal de abertura democrática em que a gente vivia naqueles tempos? Que frustração! O Presidente Jânio foi obrigado a renunciar e depois de muitas peripécias políticas e legais assumiu o Jango, o cargo para o qual afinal havia sido eleito. Pouco durou. Teve de fugir. Olha Zé Pimenta. Você é meu amigo e vai me ajudar. O nosso silêncio e descaso é muito pior do que alguma asneira que se diga mesmo publicamente. 
Coragem!

Romelândia, 19 de março de 1985.