domingo, 7 de setembro de 2014

AINDA REFORMA AGRÁRIA ..


Como é Zé Pimenta, o que você está achando de nossa reforma agrária?
Estou entendendo nada!

Não admira, mas entre suas dúvidas, qual é a maior?
Ora Fidêncio, todos dizem que é preciso fazer reforma agrária e vem você dizer que o Brasil não precisa de nenhuma Lei neste sentido. Como explica isto?

Meu amigo Zé Pimenta, de tanto que já se ouviu falar sobre este assunto ainda não ouvi nenhuma definição de seu exato sentido. Esta é a verdade. Senão, dize lá tua opinião: “ O estivador de Salvador da Bahia, o favelado do Rio de Janeiro, o ferroviário ou minerador de Criciúma têm alguma coisa a ver com este assunto?

Fidêncio, eu sempre ouvi dizer que reforma agrária visa dar terra a quem não tem e quer trabalhar. Ora, o estivador, o ferroviário, etc. que você menciona, não precisam de terra...

Olha Zé Pimenta, conversa bonita nesta terra nunca faltou. Agora mesmo ouvi o sr. Wilmar Dallagnol dizer que “é preciso respeitar o direito de quem quer trabalhar”. Maravilhosa descoberta. E aqueles que estavam na terra, debandaram e foram passar miséria nas cidades; como vamos fazer respeitar o direito deles? O que os políticos ainda não descobriram é como tirar proveito de uma eventual “lei de reforma agrária”. Tão logo descubram, vai funcionar o eterno jeitinho brasileiro e teremos a dita cuja. Como se faltasse lei neste país! Ou eles entendem de uma vez por todas que a reforma agrária, em sua amplitude, abrangerá toda a sociedade brasileira, estivador, favelado, ferroviário, dona de casa, estudantes etc (principalmente este mundo infantil e juvenil das escolas, que será o Brasil de amanhã e do qual se faz tão pouco caso) ou a derrocada continua.

Então Zé Pimenta, você acredita que estes coitados que vão ganhar terra vão resolver o assunto?
Fidêncio, a verdade é que já não acho mais coisa nenhuma.

Aí está a grande verdade, meu amigo Zé Pimenta, e é justamente isto que muita gente boa e graúda quer. Este é o caminho da demagogia que qualquer hora deixará de funcionar. Para eles, não convém que o povão entenda. Mas tem uma coisa – todas as pessoas que eu referi precisam comer e para isto é preciso produção de alimentos. Alimentos que nosso país terá de produzir. De qualquer jeito. Ou vamos continuar importando feijão podre do México e repolho da Bolívia (vindos de avião)? A par de muita produção de alimentos, nós precisamos: - preço justo para o produto agrícola do produtor; preço justo deste alimento na mesa do estivador, do ferroviário, do favelado, etc..., pois eles, bem como todos os demais, são irmãos e co-interessados na produção agrícola; - por um freio na ganância do intermediário e implantar meios de transporte o quanto mais barato possível.... Por este caminho, a situação vai melhorar, um pouco a curto prazo e muito a longo prazo. 

Na mesma hora que o produtor de nossa região ganha CR$ 70.000 por saco de feijão, em Florianópolis um quilo custa CR$ 6.000. Pode?

Romelândia, 08 de junho de 1985.

Tio Fidêncio.

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