quarta-feira, 23 de julho de 2014

ÊXODO RURAL E REFORMA


A pessoa que acompanha nosso pensamento sobre êxodo rural, neste Cantinho de Romelândia, já deve ter compreendido que nosso cuidado nasce do tão badalado assunto da Reforma Agrária, que agora chega a uma fase decisiva – embora seja só o começo – e do modo mais triste e lamentável. Já deixei claro que minha grande preocupação provém do enorme desconhecimento, em nosso país, da realidade agrária. Sei que há cidadãos, e muitos felizmente, que são estudiosos e se preocupam seriamente com o problema. Pessoas que têm os pés no chão. Mas o que estamos assistindo por parte de nossos governantes é desconhecimento de causa e despreparo. Quando eu falo de governo eu não me refiro ao Presidente da República , nem aos governadores, nem legisladores atuais. Refiro-me sim à classe dominante em nosso país – incluídos os governantes -, desde o tempo da independência. Durante este século e meio nós só tratamos de destruir a natureza – a terra e o rurícola. A realidade está aí para ser vista por quem tiver boa vontade.

O grande e mais grave problema é o despreparo, continuo afirmando. Vejamos a notícia que nos traz o rádio: - O ministro dos assuntos fundiários (portanto da reforma agrária) declarou em entrevista que a reforma agrária será implantada prioritariamente nas áreas de conflitos. Portanto, vai haver reforma na opinião do ministro em Romelândia, São Miguel do Oeste, Cunha Porã e Abelardo Luz, em nossa região, onde houve invasão de propriedades particulares. Configurou-se o estado de conflitos – portanto, agir. Em Anchieta, Descanso, Itapiranga está tudo em paz, não houve área de conflito, portanto não precisam, por enquanto de reforma agrária. Maior ignorância da gravidade do assunto não pode haver. Medida paliativa que só fará agravar a situação no país inteiro. Diante da indecisão do ministério, outros focos criarão coragem e as invasões vão continuar.

Nós não precisamos de nenhuma Lei de reforma agrária. O que nós precisamos é de reforma de consciência. Consciência Nacional. O Ministério não fará reforma agrária. O Presidente não fará. Quem vai fazer reforma neste país é somente uma consciência nacional que reunirá todos os brasileiros debaixo da bandeira e em torno da constituição, mostrando que quem tem direitos também tem deveres. Nada mais e a reforma agrária se fará pacificamente pelo próprio povo brasileiro. Cada qual no seu posto e cada qual com seus direitos e cada qual com seus deveres. O resto é conversa.

Romelândia, 30 de maio de 1985.


Tio Fidêncio.

domingo, 20 de julho de 2014

AINDA A REFORMA AGRÁRIA..


Continuamos o pensamento do último “Cantinho de Romelândia”. Se todos os minifundiários do sul do nosso país, de 1945 pra cá, tivessem ficado aí, produzindo tudo o que precisassem para seu sustento e vendendo o excedente, hoje ninguém falaria em falta de alimentos neste país e nas cidades não existiria tão cruciante, o problema do desemprego e do subemprego. (Porque tantas mazelas para cima de nós brasileiros: fome, falta de emprego, analfabetismo crônico, milhões de crianças abandonadas, velhice ao desamparo, prisões superlotadas, etc) Eu já fico até com vergonha diante de nossa bandeira. Será que ela não merece mais respeito?

Todos nós estamos convocados para esta grande empreitada, manifestando por todos os meios, nossa inconformidade diante deste quadro. Não sei com que cara, Delfim e sucessores aparecem nas reuniões do FMI e imprensa diante disso tudo. E ainda aparecem por lá com manias de grandeza e mordomias.

Está também na hora de aprendermos fazer menos patriotadas e trabalhar e produzir mais.

Existem diversas razões para o êxodo rural dos últimos 40 anos. Mas hoje vamos falar num quadro atual, que já elucida um pouco. Levantamento feito no Rio Grande do Sul mostra que a soja custa ao produtor CR$ 62,00 e ele está recebendo somente CR$ 44,00. Ano passado a soja custava CR$ 20,00 e o saco da farinha de trigo de 50 quilos custava CR$ 15,00 e hoje custa CR$ 80,00. Será que o agricultor já tem novamente licença para plantar o trigo? (Esta é outra história triste que será abordada). Trigo para fazer seu pão, para não ir comprar no mercado. Nosso colono recebia pelo quilo de porco em dezembro de 1984 CR$ 3.120,00 e hoje recebe CR$ 3.050,00. O concentrado neste meio tempo subiu de CR$ 11,00 para CR$ 35,00. Afinal, quem governa este país? E nosso agricultor está sendo convidado para, em praça pública, brevemente, bater palmas nos comícios de nossos representantes políticos.

E esta história repete-se desde que me conheço (será que me conheço?) por gente.

Ainda existem muitas outras razões do êxodo, as quais veremos, e que, de um modo geral, não merecem atenção – o que caracteriza mais uma vez quem e o que governa este país.

Romelândia, 29 de maio de 1985.


Tio Fidêncio

quarta-feira, 16 de julho de 2014

AINDA A REFORMA AGRÁRIA.


Nós estudamos. Procuramos aprender com os outros... Os outros devem aprender conosco. E disto tudo pode nascer alguma coisa positiva. Não desesperemos!

Estamos tratando (tentando tratar) do magno assunto “reforma agrária”. Já deixamos claro nosso pensamento de que este problema não pode ser solucionado sem darmos a devida atenção ao fenômeno êxodo rural e tentar elucidar as causas do mesmo. Um povo que tinha a sua terra e debandou! O termo êxodo é este mesmo, porque foram enfrentar uma vida nova num ambiente desconhecido.

Vamos partir da pressuposição de que este grande problema vai ser em última instância, resolvido nos gabinetes governamentais, na capital federal. Lá estão assessores altamente capacitados e que saíram naturalmente de nossas faculdades. Estudaram pra que afinal?

Mas, mesmo partindo desta premissa não deixamos de preocupar-nos com os possíveis resultados. Senão vejamos a opinião de um vestibulando da Faculdade de Ciências Agrárias de Belém do Pará, num quesito sobre o significado do termo “êxodo rural”. É do Correio do Povo ( uma das coisas boas da vida que perdemos).

VESTIBULANDO REDEFINE O ÊXODO RURAL – Belém, 14 (CP) – O êxodo rural tanto pode ser “uma ferramenta que serve para executar algumas tarefas na área da agricultura”, como, segundo algumas redações feitas por vestibulandos da Faculdade de Ciências Agrárias do Pará. A prova da redação manteve, assim, a tradição de verdadeira batalha para os candidatos no último dia do teste a que 25 mil deles se submeteram, domingo, na capital, em meio a intensa chuva, que durou desde a manhã, e que provocou pequeno atraso no início da prova de redação e expressão.

De acordo com a redação do vestibulando que definiu o êxodo rural como uma ferramenta agrícola, “ela é constituída por uma peça de metal em forma de chapa, com um cabo de madeira de aproximadamente um metro de comprimento, com o diâmetro quantas vezes for o diâmetro do furo onde fica encaixado o mesmo (cabo)” E diz mais: “ O funcionamento desta ferramenta é bem simples. Sempre funciona em frente do operador, em uma posição inclinada para facilitar o serviço. Algumas das suas utilidades são: a capina, abrir covas, valas, etc.”

Ó meu amigo Zé Pimenta! Compreendeu agora o que é êxodo rural? Não é tão complicado como parecia. Né?

Não sei se me preocupo sem razão, mas já vai para alguns anos que guardo este recorte do Correio do Povo e fico me perguntando nas horas de sililóquio se este ilustre cidadão – hoje formado agrônomo – não está em algum gabinete em Brasília, preparando algum ante-projeto de reforma agrária. Porque até hoje nós andamos brincando demais com este assunto que é muito sério e põe em risco nossa própria sobrevivência como Nação.

Romelândia, 28 de maio de 1985.

Tio Fidêncio.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

AINDA A REFORMA AGRÁRIA


Um dos pontos chaves da Reforma Agrária será colocar a terra ao alcance de quem nela quer trabalhar. É... ”terra pra quem quer trabalhar”! É bonito, principalmente no papel, e esta euforia nos deixa preocupados, porque a posse da terra é apresentada como a solução maior e única. Mas eu sempre pergunto porque tanta gente que tinha terra, abandonou, deu mais ou menos de presente e foi embora? Por quê? Já se vê que a posse da terra só por si “não resolve o problema”. Quais são as causas do êxodo rural então? Em nossa região sul, é claro, porque lá do norte e nordeste não as conhecemos e serão naturalmente outras – Lá é outra terra, da qual só temos vagas informações ou desinformações amplas.

Ainda que a terra seja doada para quem quer trabalhar, - o que seria justo – ainda falta o mais importante e o mais difícil: O amor à propriedade e o orgulho pela profissão, e sentir-se valorizado como parte indispensável no contexto da sociedade. Este amor e este orgulho não podem ser insuflados por leis e decretos mas devem emanar de um sentimento de ampla segurança. É como o caso de o governo preocupar-se com o controle da natalidade porque a fome impera no país mais rico do mundo.

Quando Baltazar do Bem e Canto assumiu a Secretaria da Agricultura no governo Amaral Souza, disse uma coisa importante: "Precisamos fazer com que nosso agricultor volte à agricultura de subsistência, que não sei por que foi abandonada". O que, é claro, não conseguiu, mas na hora da posse, se não matou, tirou pena. Ele não queria dizer que o agricultor só deve produzir o que consome. Queria sim dizer que o agricultor não deve comprar no mercado aquilo que ele mesmo pode produzir.

Romelândia, 15 de maio de 1985.

Tio Fidêncio.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

REFORMA AGRÁRIA


Um dos grandes assuntos do momento. E dos tantos grandes problemas a resolver. Em verdade o maior, porque dele depende a solução dos outros, principalmente o social. Isto porque não podemos esquecer as leis da vida e uma delas ensina que saco vazio não para em pé. E todos precisam comer. O doutor precisa e o Jeca Tatu, depois de tanta tristeza, aprendeu que também precisa. E além de providenciar o que comer, ele teve de aprender mais algumas coisas elementares e muito necessárias.

O assunto é sério e o grande problema é: - quem vai fazer esta reforma? Serão os políticos que nada entendem do assunto - ou não querem entender - ou serão os tecnocratas de gabinete que tudo complicam? Os latifundiários, que pesam na balança das decisões ou os minifundiários, que constituem grande maioria - mas que nada pesam? Começar por onde? No México onde o extinto INDA foi buscar o Modelo da Reforma de 1965? Ou nos Estados Unidos da América do Norte, donde os técnicos já trouxeram tanta coisa boa? Ou vamos de uma vez por todas aprender que nosso clima é nosso; a composição do nosso solo é característica “nossa”. A distância dos centros da produção de alimentos e dos centros consumidores é astronômica e muito nossa, dentro dos meios de transporte – os mais caros do mundo - por também serem nossos, e tantas outras particularidades mais.

A triste realidade é que nós nem conhecemos nosso país. O Zé povinho (eu) por absoluta falta de condições e a classe dominante por absoluta falta de interesse.

Eu li algures ou será que ouvi dizer, será verdade ou será mentira que nós temos em nosso país fazendas que abrangem um município inteiro ou mais, de um dono só e tudo o que está lá dentro pertence a este cidadão, incluídos os trabalhadores ou seja, os habitantes. E nós aqui, minifundiários, somos donos do produto de nosso trabalho até onde?

Romelândia, 08 de maio de 1985.

Tio Fidêncio.

terça-feira, 8 de julho de 2014

NOTÍCIA ALVISSAREIRA E CONFUSA


Dia 1º de maio de 1985, todos nós ouvimos a alvissareira notícia: No mês de abril baixou o índice da inflação. A novidade surpreendeu a todos, porque o brasileiro está completamente desacostumado de notícias boas, neste terreno. De saída, pela surpresa, todos ficaram em silêncio, até que alguém começou a estabelecer comparações e daí... todos sabem tudo sobre tudo e ninguém sabe nada sobre nada e quando em meu raciocínio próprio concluí que todos sabem tudo a respeito dos outros e nada sobre si mesmos, tudo isto virou numa coisa bem engraçada.

Eu estava naquele dia em Chapecó e ouvi os comentários de algumas donas de casa: o feijão subiu no mês de abril de CR$ 1.500,00 para CR$ 2.620,00, a banha subiu de cinco mil para sete mil e por aí afora. E falando em banha, para variar um pouco, aquilo que vem empacotado será banha? Qualquer hora vou empacotar um quilo de banha do porquinho que de vez em quando carneio, para ver se dá. Não custa aprender.

Quem afinal está com os pés no chão e a cuca no lugar? É o economista com suas teorias, ou a dona de casa com os milagres e acrobacias que precisa fazer para controlar a tal da inflação? Ou foi o Ministro Delfim Neto que com sua política da panela cheia deixou muito caboclo bom até sem panela. Até quando, Catilina?

Romelândia, 02 de maio de 1985.

Tio Fidêncio.